O Seguidor
Esta nossa história começa, como tantas outras, numa segunda feira de manhã. O senhor Martins, nosso protagonista, prepara mais uma jornada de "trabalho". Toma um banho rápido,veste-se, equaciona durante uma fracção de segundo fazer aquela barba de dois dias decide-se por deixar para outra altura. Enquanto come uma torrada meio queimada e saboreia, tanto quando possível, um café já quase frio, dá também uma vista de olhos no jornal, de ontem. Epitáfio, seu infeliz nome de nascimento, pode parecer um qualquer trabalhador como tantos outros, mas está longe disso. Formado em sociologia há quase 20 anos, nunca teve um emprego digno desse nome. Vive sobretudo dos direitos de autor de um livro poeirento que escreveu na juventude (que, por sinal, detesta) sobre a introdução da gaita de foles no sul da Europa e de uma herança razoável deixada por uma tia-avó que habitava na Macedónia. Como não tinha vícios nem luxos especiais, as suas despesas eram também reduzidas. Os seus dias eram ocupados por uma peculiar actividade - seguia pessoas. Não no sentido de detective da coisa, apenas seguia-as. Escolhia uma qualquer personagem que via na rua e acompanhava-a à distância, anotanto qualquer pormenor que lhe interessasse. Tinha em mente escrever um manual definitivo da Sociologia moderna com os seus achados mas duvidava que tivessea paciência necessária que demonstrara no final do curso, com a tal obra referida. Eram 9 e picos, hora que costumava inicar a sua demanda por novas cobaias anónimas e completamente ignorantes dos seus propósitos. Espreitou pela janela e viu que choviscava ligeiramente, o que diminuia a quantidade de gente, mas isso nunca antes o impediu. Gabardine, chapéu de abas e chaves, fez-se à estrada. Foi de metro até ao campo pequeno. Tentava não se concentrar sempre na mesma área para obter resultados diferenciados. Ainda dentro da estação, escolheu ali a sua primeira "presa" do dia - uma senhora de meia idade, talvez 35 anos diria, longe de atraente e com o chamado "fato de executiva". Logo na saída, Marta entrou num café. É óbvio que não sabia o seu nome real, nem de longe se interessava, mas gostava de atribuir um nome fictício a quem seguia. Reflectiu durante um segundo se também entraria ou simplesmente escolhia outrém. Entrou. Marta estava no balcão, pedindo um café e um croissant com queijo, sem manteiga. Anotaram ambos o pedido (o empregado e Epitáfio) enquanto o nosso herói requesitou um pacote de pastilhas. Nem dez minutos estavam volvidos quando ela, e consequentemente ele, abandonaram o estabelecimento. Deu-lhe um ligeiro avanço, para evitar confusões. Acompanhou-a durante alguns minutos e reparou que entrou num edifício que, pelas tabuletas, era um escritório de advocacia. Provavelmente trabalha aí. Viu uma paragem de autocarro por perto e iniciava a sua marcha quando notou que estava junto da universidade nova. Achou boa ideia e assim que saíu alguém de lá começou mais uma página de investigação. Escolheu dois jovens, uma rapariga e um rapaz, assim nos seus vinte anos. Iam conversando animadamente embora não conseguisse ouvir sobre o quê. Reparou nalguns pormenores interessantes. O jovem, de óculos, estava sistematicamente a evitar que "Joana" atravessasse a estrada quando o sinal não estava no autorizante verde. Estava também constantemente e desvia-la de trampas de caninos, poças de água, goteiras e outros obstáculos do quotidiano urbano. Pararam na saída do metro e conversaram mais um pouco e, para evitar reboliços, Epitáfio fingiu estar a falar ao telemóvel. No entanto, nenhum deles entrou no subterrâneo e seguiram em frente, mais uns minutos. Parece que iam para casa dele, já que a determinada altura tirou umas chaves do bolso, com um porta-chaves do Super-Homem, que entregou à rapariga para que ela abrisse a porta. E chegava ao final mais uma perseguição. O dia não estava particularmente eventful, mas também não ia desistir tão facilmente. Até à hora de almoço seguiu mais uma série de figuras, incluindo uma dona de casa que foi comprar uma dúzia de ovos e farinha, um indivíduo que passeava no parque e que falava sozinho, e bastante alto, e ainda uma curiosa personagem que durante 25 minutos falou ao telemóvel com cerca de dez pessoas diferentes, aparentemente combinando uma despedida de solteiro num bar de strip. "Clássico", pensou o nosso observador. Já depois de um agradável almoço num restaurante refundido numa rua refundida (um dos aspectos positivos deste seu "trabalho" era a constante mudança de rotina e experiências) prossegiu a sua busca. Primeiro uma jovem que andou dez minutos para ir ao clube de vídeo. Mas foi o segundo caso da tarde que marcou o dia. Era um tipo de bigode, baixo mas forte. Encontrou-o perto do dito clube de vídeo e achando-o interessante, segui-o. "Dagoberto", como o chamou, levava o que parecia ser um pequeno gravador de voz portátil que levava diversas vezes à boca, embora não entendesse o que dizia. Avançava num passo que alternava entre moderadamente rápido e bastante lento, como se os seus objectivos fossem mudando no decorrer da viagem. O próprio trajecto era estranho visto mudar por vezes abruptamente o rumo e continuar noutra direcção. Estava bastante interessado no seu achado, que contava já com quase meia hora de andamento, com apenas uma pausa numa pastelaria local. O tempo ia passando e Dagoberto não chegava a lado nenhum, o que tanto fazia crescer a curiosidade como decrescer a paciência de Epitáfio. Estavam na zona do Rato quando, num virar de esquina, o nosso protagonista perdeu o seu objecto de estudo. Olhou em volta e não o viu. Continuou mas nada. Rien. Tinha desaparecido. Estranhou mas como é óbvio não podia ligar para a polícia e informar que o tipo que andava a seguir sem motivo válido durante toda a tarde tinha-se esfumado. Frustrado, resolveu apanhar o autocarro de volta para casa. Passou a viagem de retorno a reflectir sobre o misterioso Dagoberto e nas outras trivialidades que o dia tinha proporcionado. Estava a dois quarteirões de casa, na zona do Restelo, quando se lembrou que tinha que ir comprar leite. Virou-se em direcção ao supermercado e viu, ou achou ver, Dagoberto! Não podia ser! Que diabo?! Andou mais alguns passos tentanto olhar de lado para o outro lado da rua, onde tinha avistado o fantasma. Resolvido a deixar-se de subtilidades, estancou e rodou os calcanhares na hipotética direcção de Dagoberto. Não estava lá. Estaria a ficar senil? Possivelmente. Virou-se para retomar o caminho e deu de caras com Dagoberto! O sinistro estranho perguntou ao nosso herói se lhe podia informar da situação horária presente. Atrapalhado, acedeu ao pedido e tentou seguir em frente mas foi novamente interpelado. "Já viu isto?" "O quê?" "O tempo, o tempo anda estranho..." Já assustado, acenou afirmativamente e saiu dali o mais depressa possível. No supermercado fez, como sempre, muito mais compras que as que tinha planeado mas o susto foi maior quando viu que na caixa estava a ser atendido pela jovem que tinha perseguido até ao clube de video. Até entrar dentro de casa cruzou-se com pelo mais uma dezena de outras personagens que ao longo dos últimos quinze anos investigara. Deitou-se na cama e perguntou-se se estaria a ficar louco ou simplesmente tinha vigiado todas as pessoas da cidade. Adormeceu - amanhã é outro dia...
O FIM

1 Comments:
que espanto...
daria um bom filme....
Que terá acontecido??
talvez tenham morrido todos....será?
mas a referência ao tempo... intrigou-me!
Tens talento, a tua escrita prende.
vou reler entretanto p ver se saco mais alguma resposta...
Btw, as pessoas a que te referiste são baseadas em pessoas reais ou inventaste-as completamente» ;)
bj kero mais destes
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